quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Arrais
 
Enfim, depois de alguns meses planejando, consegui tirar minha carteira de arrais amador. É um passo e sei bem que, como disse um experiente engenheiro naval, arrais é a categoria de quem não sabe nada.
 
Não me aflijo. Preciso dela pra seguir adiante. Seria bom poder fazer um curso mais extenso que me desse a carta de capitão amador, mas não existe esta opção. Paciência. Próximo passo, mestre amador.
 
Agora, gostaria de fazer duas considerações. A primeira, 99% dos participantes de aulas de arrais querem pilotar lancha. Me sentia um estranho entre barqueiros profissionais, churrasqueiros de fim de semana e futuros pilotos de jet-ski. Eu, o único da sala de aula interessado em velejar. Senti um ar de contentamento quando o capitão da capitanias dos portos, que de dava aulas práticas, disse que o velejador é o marítimo mais consciente e preparado. Oba. Somos minoria, mas temos uma aura intocada, um certo distanciamento... como se estivéssemos mais próximos da natureza ou soubéssemos algum segredo que pilotos de lancha não sabem. Bom, é assim que imagino.
 
Outra observação vem do fato de que, bastando eu obter minha carteira de mestre amador, para que a Marinha me considere habilitado a viajar por todo o litoral das américas e regiões adjacentes. Como?!!!
 
Alguem que nunca entrou num veleiro, com sua carteirinha de mestre, conseguida com 50% de acerto em uma prova teórica, pode se achar capaz de enfrentar um mar bravo e seguir por aí, até o Caribe, por exemplo?
 
Andei sondando sobre as aulas práticas e descobri que elas não fazem parte do curso regular das escolas náuticas. Cheguei a sugerir na escola em que me matriculei que as aulas teóricas fossem complementadas com aulas de navegação prática. Fazer uma parceria com uma escola de velas, por exemplo, que levasse o aluno a situações reais enfrentadas no mar, podendo escolher módulos, como aprender a ler cartas, escolher lugares para fundear, decidir sobre rotas, enfrentar ventos fortes, viagens curtas ou longas, de acordo com o interesse de cada um... Mas foi como conversar com um pão de queijo.
 
Descobri, enfim, que tenho de me matricular em alguma escola de velas ou contratar algum navegador. Novamente, não me aflijo. Estou chegando mais perto.
Start-up
 
 
 
Me lembro bem a primeira vez que pensei ser possível tornar-me um velejador. Estava em casa, ainda morando no Rio de Janeiro, quando vi um documentário sobre o australiano Jesse Martin, primeiro adolescente a dar a volta ao mundo sozinho e sem paradas.
 
Incrível,  não? O fato de ele não ter qualquer experiência anterior com navegação, soou como um passe livre para qualquer um que desejasse tentar uma experiência semelhante. Minha concepção a respeito de velejadores estava associada a uma imagem de tradição, gerações transmitindo seus conhecimentos de forma reservada, pouco aberta a outsiders e curiosos. Ou então, de milionários que competiam em regatas transoceânicas em monocascos de tecnologia espacial, clube mais fechado ainda.
 
Adepto de esportes mais radicais, fiquei entusiasmado e resolvi buscar informações sobre como me iniciar neste esporte. Fui até a Marina da Glória e entrei num pequeno escritório onde um baixinho de cabelo arrepiado e quase calvo me atendeu. Falei da minha intensão de aprender sobre navegação oceânica o que foi prontamente atendido com a sugestão de um "curso de vela oceânica" (isto mesmo, entre aspas) ministrado por ele mesmo.
Opa. Parece que não é tão difícil, pensei comigo. Depois deste curso, acho que poderei pensar em investir num barco e sair por aí.
 
A falta de noção de um iniciante só é superada pela empolgação irracional. Acho que deve ser a mesma sensação de quem compra uma Ferrari, sem pensar no preço do IPVA ou do seguro. Não cheguei a comprar um barco, mas assinei minha inscrição nas tais aulas de vela oceânica, pagando a vista, me imaginando em algum lugar do pacífico.
 
Pra minha frustração, as aulas não passaram de alguns passeios ao redor da Marina da Glória, enquanto o dito professor de cabelos ralos e espetados, falava sobre alguns itens do barco. Isto é uma retranca, aquilo é um enrolador, etc, etc. Em alguns momentos, ele falava sobre cambagem e nos deixava segurar a cana de leme e virar a embarcação, enquanto fazia elogios e piadas que só ele ria, além de aproveitar o momento para passar uma flanela nas ferragens de inox. Além de mim, outros dois alunos se entreolhavam frustrados, com cara de que também viram o documentário do Jesse Martin.
 
Acho que este cara nunca saiu com o veleiro dali. Este é um tipo de velejador que fica passeando em volta de um ponto seguro, vai de uma ilha pra outra, retorna e diz que foi uma tremenda velejada. No documentário sobre Jesse Martin, há uma passagem muito interessante, que mostra este tipo de velejador. Quando o rapaz enfrenta uma enorme tempestade, a cena corta para alguns capitães de iate Clube, do tipo que gostam de ficar tomando drinques sob o guarda sol, vestindo casaco com estrelas, mas que nunca foram além de algumas milhas longe de seus clubes. Estes minimizam a situação de Jesse: Ele não enfrentou tempo ruim (a cena volta para a embarcação sendo arrasada por ondas violentas), diz um velho sentado de forma empertigada, com ar de inveja e soberba.
 
Este tipo de velejador adora o glamour, mas não tem capacidade (ou mesmo interesse) de enfrentar o oceano. Enfim, acabei sem dinheiro e com uma sensação de ter sido enganado por um bobo.
 
Adormeci meu desejo de velejar por um tempo. Investi em trabalho, consegui construir uma casa no litoral sul fluminense e passei direcionar minha vida para lá, até conseguir me mudar definitivamente. Por muito tempo cuidei de vários assuntos que nada tinham a ver com velejar. Aprendi a surfar, pois sempre amei o mar e a liberdade que ele representa. Por aqui, onde moro, há muitos barcos e veleiros. O lugar possui várias marinas e é possível ver os mastros dos barcos em qualquer ponto do litoral. Esta imagem diária aos poucos foi reacendendo a chama do navegador solitário. Passei a ler histórias de outros velejadores, como Amyr Klink, Derek Lundi, Serge Testa, Roberto Barros. Este, em especial, me chamou a atenção pelo tipo de barco que utilizou, feito em madeira e fibra de vidro, de custo relativamente baixo. Com um pequeno 28 pés, viajou do Rio à Polinésia Francesa, tornando-se um projetista de veleiros de cruzeiro e realizando o sonho de vários velejadores que, como eu, tinham o sonho de um dia viajar mundo.
 
Fui pesquisar sobre métodos de construção. Meu pai sempre gostou de construir coisas em madeira. Já havia feito uma lancha cabinada usando processo semelhante ao de Barros. Embora só a tenha conhecido de foto (pois afundou tempo depois), tomei contato na adolescência com os métodos construtivos. Talvez fosse por aí, pensei. Se não tenho como comprar um veleiro de milhares de dólares, vou fazer um.
 
Todo o processo construtivo do meu primeiro veleirinho eu conto em detalhes no site http://bolgergypsy.blogspot.com.br/. O fato é que, foi uma experiência cansativa, que provavelmente não repetirei em minha vida. Prefiro deixar para os profissionais.
 
Ao fim de tudo isto, acabei mais próximo do mundo da vela. Mais adiante, contarei uma de minhas primeiras experiências com meu veleirinho.